O estado do Rio de Janeiro produz aproximadamente 4,5 milhões de litros de chorume por dia, volume equivalente a quase duas piscinas olímpicas. O dado faz parte de um estudo desenvolvido pelo Mestrado Profissional em Ciências do Meio Ambiente da Universidade Veiga de Almeida (UVA), que analisou informações de 2025 do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) e avaliou 18 aterros sanitários fluminenses.
Além da produção diária, o levantamento identificou aproximadamente 803 milhões de litros de chorume armazenados em 135 lagoas operacionais distribuídas pelos aterros estudados. A pesquisa chama atenção para a necessidade de controle permanente da geração, armazenamento, tratamento e destinação do líquido.

O chorume, também conhecido como lixiviado, é resultado da decomposição dos resíduos e da passagem de água, especialmente da chuva, pelo material depositado nos aterros sanitários. Por carregar diferentes tipos de contaminantes, o líquido precisa ser submetido a processos específicos de armazenamento e tratamento, além de acompanhamento ambiental contínuo.
Os 18 aterros avaliados no estudo recebem aproximadamente 97% dos resíduos urbanos registrados na base utilizada pela pesquisa. Dentro desse universo, a produção de chorume está concentrada em poucas unidades: cinco aterros são responsáveis por cerca de 75% de todo o volume gerado no estado.
Para o professor e pesquisador Carlos Canejo, responsável pelo estudo, os números reforçam a importância de analisar todas as etapas relacionadas ao manejo do lixiviado de maneira integrada. O processo inclui desde a geração do líquido até seu armazenamento, tratamento e destinação definitiva.
Segundo o pesquisador, a segurança da operação depende de uma combinação de fatores, como fiscalização, estrutura logística, capacidade disponível para tratamento e monitoramento das unidades. A gestão adequada desses elementos é fundamental diante dos grandes volumes produzidos diariamente.
Tratamento pode ser feito nos próprios aterros ou em unidades externas
O levantamento identificou diferentes modelos utilizados para tratar o chorume produzido nos aterros sanitários. Em algumas unidades, o processamento é realizado dentro do próprio complexo. Em outras situações, o líquido é retirado por caminhões e levado para instalações externas, entre elas estações de tratamento de esgoto.
Nos sistemas instalados nos aterros, a estrutura precisa acompanhar a produção contínua do lixiviado e as alterações em seu volume e composição. Já quando o material é transportado para outro local, a logística de retirada passa a ser um fator importante, especialmente diante da quantidade armazenada nas lagoas.
Um dos aterros analisados encaminhou mais de 1,3 bilhão de litros de chorume para tratamento externo entre 2019 e 2023. Desse total, aproximadamente 77% foi destinado a uma estação de tratamento de esgoto localizada no município do Rio de Janeiro.
Destinação para estações de esgoto exige cuidados
O estudo destaca que o chorume possui características diferentes das encontradas no esgoto sanitário comum. Por isso, seu recebimento em estações convencionais exige avaliação da estrutura disponível, controle do volume encaminhado e acompanhamento do funcionamento do sistema de tratamento.
A Lei Estadual nº 9.055/2020 estabelece regras para esse tipo de procedimento. A legislação impede o tratamento de chorume bruto em estações convencionais de esgoto, salvo quando houver sistemas de pré ou pós-tratamento capazes de assegurar o atendimento aos padrões ambientais estabelecidos.
Membranas estão presentes na maior parte dos sistemas
Outro ponto analisado pela pesquisa foi a tecnologia utilizada nos aterros para tratar o lixiviado. De acordo com o levantamento, cerca de 86% da capacidade identificada está relacionada a sistemas de separação por membranas.
Esse tipo de tecnologia permite separar parte dos contaminantes presentes no líquido durante o processo de filtragem. Como resultado, é produzido um efluente com menor concentração dessas substâncias. O procedimento, porém, também gera um material concentrado que reúne parte dos contaminantes retirados.
A destinação desse concentrado é considerada um dos desafios relacionados à utilização das membranas. Uma das alternativas empregadas no setor é a recirculação controlada do material para a própria massa de resíduos, prática que depende das características e condições de operação de cada aterro.
Períodos de chuva podem aumentar produção
A quantidade de água que chega às áreas de disposição dos resíduos também interfere na produção de chorume. Em períodos de chuvas intensas, o aumento da entrada de água pode elevar a geração de lixiviado e pressionar as estruturas utilizadas para armazenamento e tratamento.
Quando a capacidade das lagoas, dos sistemas de tratamento ou da logística de transporte está próxima do limite, eventuais dificuldades operacionais podem aumentar os riscos ambientais. Por isso, o planejamento precisa considerar as variações na geração do líquido ao longo do tempo.
O estudo aponta que a concentração da produção em poucos aterros, a existência de 135 lagoas operacionais e a utilização de diferentes métodos de tratamento tornam necessário um planejamento integrado entre operadores e órgãos responsáveis pela fiscalização.
Independentemente da tecnologia adotada ou do local onde o tratamento é realizado, os pesquisadores destacam a importância do monitoramento contínuo, do controle operacional e do cumprimento das normas ambientais para reduzir os riscos de impactos sobre o solo e os recursos hídricos do Rio de Janeiro.




